quarta-feira, 13 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XIV – a outra

chego no Piscina Lazer e Cia arfando, preocupada com meu atraso de vinte e dois minutos. Tive que esperar Artur Oswaldo, o oficial de justiça, desistir de tocar minha campainha, para eu sair de casa. Perdi o primeiro ônibus e cá estou, atrasada, suada e torcendo para que Sr Telles, o diretor, esteja trancado em seu escritório.
Jorge da portaria me vê passar e diz baixinho: Hoje o couro vai comer... Desacelero meu passo e pergunto: Quem vai comer quem?, Jorge disfarça e não responde, com cara de “num disse nada!”.
Olavo da administração passa por mim e diz: apostei cemzinho em você, hein!, que é que deu nessa gente? Tô com cara de égua de corrida?!
Valéria da lanchonete faz uns sinais estranhos para mim. Hein?, eu pergunto com total cara de “Ah é...”. Valéria intensifica seus gestos, quase subindo no balcão. Que é que Valéria quer comigo?... não sei se está me xingando ou mostrando um novo passo de dança flamenca! Hein? Hein?, pergunto novamente. Tô cuntigo!!, ela grita mostrando a falta de um molar esquerdo.
Antes que eu desse uma resposta qualquer para Valéria, Sr Telles se aproxima, pegando no meu braço. Ah, é isso, todos já estavam sabendo de minha demissão... Sr Telles, foram apenas vinte e dois, eu juro, pode perguntar pro Jorge da portaria... digo isso só pensando em meu querido banco alto... se eu perder esse emprego, perco o banco alto, perco minha luneta, perco minha dignidade – por menor que ela seja – perco tudo que eu tenho!
Minha filha, não me interessa sua vida particular... se foram vinte e dois, vinte e três... sei bem como é essa vida de mulher solteira... Estou aqui só pra lhe dizer que Vânia Stéffani veio para somar! Para somar!! Entenda bem... Sr Telles diz isso e se afasta a passinhos acelerados. Chega a ensaiar umas corridinhas de um segundo e meio e retorna às passadas dignas de um homem de sua idade.
De luneta em punho, subo em meu banco alto. Demitida não fui. Nem mesmo advertida. As coisas parecem bem sinistras por aqui. Hoje, nem mesmo o sol parece ter bravura suficiente para dar as caras.
Quem será essa Vânia Stéffani que veio para somar? Somar o quê, minha gente? Tá todo mundo louco!!
Como de costume, verifico através de minhas lentes da luneta, se tudo por aqui está em paz. Fora o Jorge me dizer que hoje o couro vai comer, o Olavo apostar “cemzinho” em mim e a Valéria dançar flamenco na lanchonete... me parece tudo tranqüilo, tudo em p... pa-pa-pi-pi-pi-pi-po-po-pu-pu... ÁHÁHÁHÁHÁHÁHÁHÁH! Eu entendi... olho novamente através da luneta, só para ter certeza!! ÉÉÉÉ... eu entendi tudo! Minha respiração acelera... sinto minhas glândulas salivares esguicharem jatos de saliva azeda... minha garganta se fecha... o ódio arregala minhas narinas...
Vejo uma outra! Uma outra guardiã, num outro banco alto, do outro lado da piscina semi-olímpica... ela usa um binóculo super-ultra-infra-moderno totalmente ridículo!
Guardiã de piscina, no Piscina Lazer e Cia, há apenas uma: EU!
Vânia Stéffani não veio para somar! Veio para dividir... me dividir, me dilacerar, me partir em mil pedaços... o Piscina Lazer e Cia é pequeno demais para nós duas!! O couro vai comer!!
Me sinto possuída por um gremlin geneticamente modificado... Desço de meu banco alto. Apenas a luneta não me será arma suficiente! Penso se no achados e perdidos não teria uma AR 15, uma bazuca ou uma machadinha... O meu chinelo! O meu chinelo serve...
De luneta e chinelo em punho, vou em direção ao banco alto de Vânia Stéffani. Minha garganta continua fechada e a saliva azeda começa a espumar pelos cantos da boca.
Chego chutando cadeiras, mesas e o que mais está pelo caminho. A outra percebe minha fúria e se encolhe no banco alto...
Atiro o chinelo e parto para cima. Vânia Stéffani desce e percebo que ela não é tão franzina quanto me parecia através da luneta. Não importa!! O cargo é meu! O banco é meu! Os afogados são todos meus!
Eu e a outra nos atracamos ali, na grama do clube. Utilizo todos meus métodos de luta e artes marciais... Vânia Stéffani é até fortinha, mas não é duas!! Dou-lhe uma rasteira... a outra corre... vou atrás com o firme e irrevogável propósito da SUBTRAÇÃO!
Olavo apostou “benzão”...


Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


2 comentários:

  1. Ahaha... muito bom texto e filme! Tô me divertindo com a blognovela.
    Parabéns!
    Gab

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  2. "gremlin geneticamente modificado" ?!! ahahahah... essa foi demais !! Gostei demais desse capítulo ! Parabéns !!

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