quarta-feira, 20 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XV – despejada

OKEY! OKEY, OKEY!! Artur Osvaldo, você venceu! Entra e toma para ti o que é teu por direito!
Sonho que Ademar me toma em seus braços, rasga meu vestido, me diz coisinhas com o lóbulo de minha orelha em sua boca, puxa meus cabelos, me chama de lagartixa desavergonhada e encaixa em meu dedo um belo anel de compromisso... Ding-dong! Ding-dong! Ding-dong-ding... Primeiro achei que fosse o tilintar de nossas taças de champanhe...
Ding-dong! Daí percebo, ao abrir um olho e depois o outro, que alguém aperta, histericamente, a campainha da porta.
No relógio na cabeceira, são cinco e quinze da manhã. Vou até a porta... Ding-dong! Há várias semanas que disfarço a voz, fingindo ser outra pessoa. Querem que eu assine esta ordem de despejo, mas vou ficando o quanto posso.
Quem bate?, pergunto com a voz do Barney. Hei Fred, é você?, pergunto de novo, só para garantir... Se for Artur Osvaldo, ele precisa ter certeza de que não estou.
Já fui Sílvio Santos, Pato Donald, Piu-Piu, Hebe e até uma personagem que eu mesma inventei, com a voz bem parecida com a minha – para dias em que estou de mau humor.
Ninguém responde. Volto para o sonho com trilha de Julio Iglesias. Quando já visualizava novamente o sorriso cafajeste de Ademar... Ding-dong!
Já chega! Estou com uma labareda acesa dentro de mim a noite inteira... a semana inteira... há meses... desde o episódio de não-Ademar! Acabou a criatividade... Já utilizei todas as vozes estranhas e diferentes que conheço. Ademar não está, quem está é Artur Osvaldo...
OKEY! OKEY, OKEY!! Artur Osvaldo, você venceu! Entra e toma para ti o que é teu por direito!, grito com minha “mais” própria voz!
Abro a porta e encontro Artur Osvaldo inserido em seu terninho de oficial de justiça.
É impressionante tua paciência... ninguém nunca me quis tanto quanto você..., digo já puxando sua gravata.
Já estou no Piscina Lazer e Cia, sentada em meu banco alto. A culpa é toda de Ademar. Não só dei minha assinatura para Artur Osvaldo, como dei o pouco que eu tinha como garantia, pelos aluguéis atrasados.
Estou na rua. Amarga, fria, suja, barulhenta, de ninguém, cheia de germes, mendigos e prostitutas... onde pessoa alguma saberá que sou uma genuína guardiã de piscina!
Respiro fundo e tento não pensar no anoitecer. Enquanto é dia, tenho meu banco alto.
Poucos pertences consegui trazer. Que fiquem com tudo! Um “tudo” de coisas velhas, sem-graça e de pouco valor. Enquanto Artur Osvaldo se olhava no espelho do banheiro e abaixava com água da pia uns fiapos de cabelos rebeldes da cabeça, eu transferia, provisoriamente para a casa da Das Dores, minha vizinha, a geladeira de laterais não-inox. Assim que me restabelecer, mando buscá-la.
Com o que restara do salário do mês, paguei a sétima parcela da geladeira. Não me sobrou nem para uma diária num hotelzinho de quinta.
Desço de meu banco alto e me debruço no balcão da lanchonete. Oi Valéria! Lá em casa tá dedetizando... tenho muito nojo de barata... será que eu podia ficar uns tempos no seu apê?, pergunto. Ih, minina, dá não! Os minino lá di casa já dorme tudo ansim amontoado..., me responde a moça da lanchonete, deixando à mostra a falta de um molar e um canino.
Tento o Jorge da portaria: E aí Jorge?... Lá em casa tá pintando... mandei fazer umas texturas assim, uns esponjados, pra valorizar a sala. Posso ficar por uns tempos na sua casa? Jorge me olha com uma cara tão “segundas intenções”, que dá até medo. Nem fico para ouvir a resposta.
Caminho desanimada até o quartinho de guardados. Jogo meu corpo sem perspectivas numa cadeira. Olho para o armário do achados e perdidos e vejo uma lona azul enrolada numas varas de ferro. Uma casa! Minha casa! Tiro do armário e vejo que é, realmente uma barraca. Uma barraca de camping lar-doce-lar!
Monto a barraca no fundo do gramado, atrás das árvores, e camuflo com folhas de palmeiras.
Já é final de tarde. O movimento está fraco e todos já estão indo embora. Tranco a porta do quartinho, como todos os dias. Tchau Valéria! Até amanhã Olavo! Vai Sr Irene, vai pra casa!, digo.
Parece que a barra está limpa... vou me esgueirando, atenta a qualquer movimento. Perdi a casa, mas não posso perder o emprego, meu banco alto e minha luneta.
Lá está minha barraquinha toda azulzinha... Coloco minha camisola, meu creme facial, rodelas de pepinos nos olhos (que servem para alguma coisa, mas não sei exatamente para que), afofo o travesseiro e reencontro Ademar! Zzzzzz...


Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


6 comentários:

  1. Bia Rothe Puello22 de maio de 2009 06:59

    Sabia que esse dia ia chegar, mas não imaginava o desfecho da ação de despejo...
    Adorei. Adorei o making off também, principalmente da foto dos atores mirins. São lindos demais!!!!

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  2. que triste... deu uma peninha dela !! aliás, qual é o nome dela??

    Diz pra guardiã que ela pode morar aqui em casa tá? :)

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  3. Não se preocupe, a barraquinha é temporária... quanto ao nome, aguarde!
    Bjs,
    Alexandra

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  4. Adorei este capítulo. A historia da barraquinha é otima. A foto com o pepino no olho está hilária!
    Bj,
    Marcia

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  5. AMEI, POIS BASTANTE CRIATIVO , E AINDA POR CIMA NA NOSSA CIDADE,COM ATRIZ NOSSA , BJS E ESTAO DE PARABENS...

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  6. SIMONE ABREU PROVIETT CURY DE VOLTA REDONDA SOU SUA FA LUCIENE MARTES, SUCESSO VOCE MERECE, ALEXANDRA VOCE ACERTOU NA SUA ESCOLHA EM SE TRATANDO DE ATRIZ, FOI MUITO FELIZ NA ESCOLHAB ABRAÇOS E PARBENS...

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