quinta-feira, 7 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XIII – infância perdida

puro nepotismo!, diz Olavo, o assistente administrativo do Piscina Lazer e Cia. Os funcionários estão todos reunidos no pátio, próximo à lanchonete. Alguém diz oscilando a voz, entre a bravura de “Che” e a covardia de Scoobydoo: é cabide de emprego!
Esse último aí, até que eu entendi, mas “nepotismo”, me parece primo do exorcismo, do fascismo ou do bandalismo.
São seis e dezessete da manhã. Um nevoeiro esbranquiçado ainda paira sobre nós, os funcionários reunidos e “nepotizados”, segundo Olavo.
Uma mocinha muito branca, aparece de mãos dadas com o diretor, Sr Telles. Ele, muito sorridente por entre a neblina “nepotizante”, nos apresenta a moça miúda e curvada sobre uma pastinha polionda: uma ótima manhã à todos! Esta é Melinda. Digam “oi” a Melinda!, respondemos num coro totalmente “nepnotizante”: ooooi Melinda!
Esta é a nova psicóloga do Piscina Lazer e Cia. Vocês terão sessões em grupo e individuais. Percebo que alguns de vocês trazem certas tensões, mágoas e ressentimentos para o local de trabalho... tsc! Tsc! Isso não é bom.
.. Discursa o diretor enquanto Olavo balança a cabeça negativamente.
Começo a achar que nepotismo tem alguma coisa a ver com “coisa ridícula”.
A mocinha miúda começa a falar algo sobre Gestalt, psicoterapia, comportamentalismo, psiquê, id... estamos todos seguindo suas instruções para o relaxamento do corpo e mente e para a integração entre parceiros de trabalho... Me parece Yoga para bebês...
Olavo está ao meu lado fazendo a posição “peixe”, indicada por Miúda, enquanto fala comigo gesticulando o canto da boca: acredita que ela é sobrinha do cara? Quem precisa de psicóloga por aqui? Eu não sô maluco? Você é?, chego a pensar em ser bastante sincera em minha resposta, mas acho melhor dizer qualquer coisa: nããão, eu não!, Olavo continua, agora em posição de sementinha que desabrochará: a menina acabou de sair da faculdade... nós vamos ser o que? Cobaias? Puro nepotismo..., caramba! Tô ficando um pouco preocupada... será que esse tal de nepotismo tem a ver com abdução, experiências científicas em corpos humanos... contrabando de órgãos!!
Fim. Estamos todos nos dispersando, Sr Telles já se recolheu em seu escritório... cada um segue para seu posto.
Eu deveria estar mais relaxada... mas esse nepotismo me deixou um pouco tensa. A miúda não pára de me olhar. Ela me chama e pede que eu a acompanhe. Por precaução, levo minha luneta em punho, qualquer coisa, dou na nuca dela...
Sentamos no quartinho de guardados. Ela começa a falar alguma coisa e eu resolvo esclarecer: nada contra o nepotismo se for depois de morta. Acho até legal, muito nobre a pessoa doar pra quem precisa, mas no meu rim ninguém mexe, entendeu?!
A miúda não parece se assustar e responde: pelo jeito, teremos um trabalho árduo pela frente.
Essa parte eu vou acelerar um pouquinho, por que foram horas e horas de terapia. Vou dizer para vocês que foi até bem interessante me ver no útero de mamãe e reavivar toda minha infância... segundo a miúda, todos meus traumas e aflições estão lá, na infância. É preciso resgatar o seu “eu” perdido!, diz ela muito segura, baseada em sua vertente “nepotissíquica”.
Estou um pouco estranha. Me sentindo pequena. Uma vontade enorme de sair correndo pelo pátio do clube, chupar picolé e fazer xixi nas calças de tanto rir. Me bateu até uma saudadezinha das Paquitas... meu sonho era pintar o cabelo de louro e ser Paquita!
O armário de achados e perdidos do quartinho é uma mina interminável! Só coisas divertidas... um Shrek de pelúcia, várias bárbies, bonequinhas de pano e até uma suzie esportista, super parecida comigo!
Levo todos os amiguinhos e decoro o banco alto. Se o chefe reclamar, mando ele se resolver com a sobrinha. Foi ela quem me mandou resgatar a infância perdida.
Passo a tarde inteira brincando de boneca. Um rapaz magrinho cisma em se afogar justamente na hora em que o Shrek já estava quase conquistando a Suzie... Ah! Toma aí essa bóia de dinossauro verde! Se agarra nela e sai batendo as pernas...
Quando eu crescer, vou bem procurar no dicionário a palavra NEPOTISMO!

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


quinta-feira, 30 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XII - "fake"

tem um tal de Artur Oswaldo Pimenta neto, que não sai do meu pé. Êta homem mais grudento... infelizmente, não se trata de amor, paixão ou labareda... puramente o cumprimento da lei. Se me quisesse beijos, abraços, cafunés e sussurros ao pé do ouvido... estaria eu, pronta a atendê-lo! Mas o que quer de mim, não posso dar... ao menos não por livre e espontânea vontade... assinatura minha, Artur Oswaldo Jamais terá... Não estou ciente de prazo de despejo algum!!
Algumas manobras tenho feito para não encontrar Artur Oswaldo... telefone, não atendo mais. Já avisei Das Dores, a vizinha de mamãe, que se alguma coisa acontecer, se mamãe tiver um aneurisma, uma embolia, precisar de alguma coisa ou apenas quiser falar comigo, que ligue para o Piscina Lazer e Cia. Já não posso mais sair no horário de sempre. Saio de casa duas horas antes por precaução... e ainda faço uma média com Sr Telles: trabalho é o meu nome!, Cléverson, o porteiro do prédio, é “parceiro”. Semana passada foi assim: ... sinhô dotô, ela num sincontra não sinhô... foi bem lá pras banda de minas...”, e ontem: “... ô sinhô dotô, ela bem foi visitá a tia lá pr’aqueles canto lá de Perequê...”
Todos os artifícios de que disponho já foram utilizados. Artur Oswaldo já descobriu que saio duas horas antes, não me liga mais, nem dá papo para o porteiro.
Se sou eu quem está sendo despejada, basta que “eu” não seja “eu”. Vovó ficou careca e sem sobrancelhas muito cedo. Muito gentil da parte dela me incluir em seu testamento. Após seu falecimento, recebo uma caixa de papelão lacrada com múltiplas fitas daquelas que grudam e não desgrudam por nada nesse mundo... bem, recebo como herança, um porta-retrato de metal vagabundo, um urinol e sua peruca... vovó nem imaginava o quanto me seria inútil o porta-retrato e o urinol... mas o quanto utilíssima seria a peruca neste momento de minha vida.
Bastou a peruca, um batom forte, uma almofadinha na bunda... Artur Oswaldo, com seu terninho de oficial de justiça, entra no elevador e eu saio. Simples assim! Pelo jeito, estou irreconhecível.
No ponto de ônibus, tudo tranqüilo... Gostosa!, grita um rapazinho que passa de bicicleta. A moça sentada até que é jeitosinha... Dá eu aí nessas carne?!, agora o elogio vem da rapaziada logo ali na obra do prédio ao lado. A carne sou eu? Eu?!
O ônibus chega. O trocador acaricia meus dedos ao me entregar o troco. O careca duas cadeiras atrás me fala obscenidades. O rapaz com fones de ouvido e pastinha de “boy” nas mãos me lança olhares estilo “míope”... Caramba! Tô agradando!
Desço do ônibus e no caminho para o Piscina Lazer e Cia, paro numa daquelas boutiques que vendem de “um tudo”. Cílios extra volumosos, cola para cílios extra volumosos, peitos de silicone, sandália dourada salto dezessete, “make-up” completo... tudo pago com chequinho “seja o que Deus quiser”.
Do quartinho do Piscina Lazer e Cia para o mundo... uma nova mulher! Nunca pensei que a velha peruca de vovó fosse para mim, o início de uma nova era!
Dou uma voltinha pelo pátio... Esses peitos cinqüenta e dois agora pertencem a mim! A nova bunda me inclui no “hall” das brasileiras genuínas! Como é gostoso ser gostosa... Ah, se Ademar me visse...
O rapaz ali sentado na beira da piscina disfarça, mas sei que ele me quer... o poder a mim instituído pela peruca de vovó, ordena que siga seus instintos, rapaz!
Um dedinho chama e todo o corpo do rapaz atende. Ele verifica se ninguém nos observa e me segue até o outro lado das árvores do gramado.
Agora sim há labareda, beijos, abraços, cafunés, sussurros ao pé do ouvido e “cositas más”.
Que vitalidade tem o rapaz! Percebo que a peruca de vovó voa longe... sinto que um de meus cílios fica preso no sovaco do rapaz... sinto também um calor intenso nas costas. Não pela “labareda”, mas por minha brasileiríssima bunda que agora se instalara bem acima dos rins. Estaria eu me desfazendo?!
No instante em que tudo ia bem, o rapaz pára e me olha muito desconfiado. Um de meus peitos cinqüenta e dois estava agora grudado a sua testa. Eu, toda desconjuntada, me desfazendo. Ele, pisando na peruca de vovó, arrancando o peito da testa, com cara de indignação...
O rapaz sai, me deixando ali, frente a frente com meu eu verdadeiro. O “eu” que em algum momento, será obrigado a assinar a carta de despejo e fazer a vontade de Artur Oswaldo. Ei! Me espera! Nem tudo é “fake”!

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


quinta-feira, 23 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XI – eu eternizada

tenho pensado muito em Ademar... a última semana foi morosa, sem nenhum afogamento após o episódio da “senhora de todas as santas”, nenhuma mulher estatelada se lambuzando de blondor, nenhum entregador de pizza... nem mesmo não-Ademar...
Tenho realmente pensado em Ademar... Como seria minha vida hoje, se estivesse casada com ele? Teria no mínimo quatro filhos, não estaria sendo despejada, teria uma carteira de dinheiro, com dinheiro dentro... e fotinhas 3X4 de toda a prole dentro daqueles plastiquinhos, tão difíceis de se achar hoje em dia.
Penso também, que na mesinha de cabeceira ao lado de Ademar, teria minha foto, vestida de noiva, deixando aparecer meu rosto pendido, dentre flores do campo de meu bouquet. Em seu escritório, foto minha de férias em Porto Seguro... Em seu protetor de tela, no computador, eu, estendida numa pedra de uma cachoeira, quando acampamos na Serrinha... No chaveiro de casa, meu rosto pequenino apoiado suavemente numa rosa vermelha... Na porta da geladeira, eu, numa carroça puxada a boi, no hotel fazenda, nas férias de julho... na estante da sala, em cima do piano (com certeza teríamos um piano), no passa prato, dentro do armário, na escrivaninha do escritório... eu, eu, eu!
Viro minha luneta ao contrário e vejo meu rosto refletido na lente. Ninguém me tem! Ninguém me tem! Uma fotinha que seja... preto e branco ou amassada, digital ou Polaroid... chego à triste conclusão que sou só.
Já escutei por aí, que a fotografia eterniza o momento. Eu, uma brava guardiã de piscina, não seria eternizada por ninguém... seria esquecida, pois não havia quem quisesse uma foto minha. Nem mesmo mamãe.
Quando uma lágrima extremamente salgada acabara de percorrer minha bochecha e já escorria pelo canto da boca, ouço sons estranhos. Me parece conversa entre marcianos. Trroulevous trrébian monamurrr jevébian lafotô... Estarei eu enlouquecendo? Perdendo os sentidos? As pessoas falam e não compreendo nada! Serei trancafiada num manicômio e esquecida, nem uma foto para contar história, comprovar que eu, o banco alto e minha luneta realmente existimos.
Desço rapidamente de meu banco alto. Continuo a escutar pessoas falando e não compreendo nem mesmo uma palavra... Iltravaialapost quésquevuvulêalê mafême. Me sinto desorientada e ponho a mão na testa, verificando a temperatura.
Vejo Sr Irene do outro lado da piscina funda arriscando passos de rumba. Avisto Kleber, o rapaz da faxina. Me aproximo dele. Ele olha para mim com seu olhar nordestino bem normal e começa a falar: Viuaíquiojenumtemistura êtadiretômarmãodivaca quinemumtikdá sómarmitasemistura émacarrãocumovoesó!
Eu estava mesmo enlouquecendo! Nada que Kleber dizia fazia sentido para mim... Sr Telles, o diretor, cutuca o meu ombro... Viu que chique? Até francês agora freqüenta o Piscina Lazer e Cia, fique de olho para que este casal seja muito bem recebido, a divulgação de nosso clube no exterior é de extrema importância para nós... dá status!
Eu entendi! Entendi tudo, tudinho que Sr Telles disse... então não são marcianos, são franceses...
Uma mulher loura e bonita, de pele muito branca e língua enrolada no “erre”. O homem devia ser muito branco, mas no momento, estava tostado de tanto sol brasileiro.
Uma máquina eternizadora! Uma moça, mais jovem, talvez filha, sobrinha ou amiga, tira fotos do casal...
Chego de mansinho e tento me posicionar próximo ao casal. Se mamãe ou Ademar não me tem aqui no Brasil, alguém me terá então na França! Deseternizada é que não ficarei!
Me aproximo sorridente. O casal percebe que estou ao seu lado e se afasta. Só de pensar em minha imagem eternizada pela Europa, me sobe um frisson incapaz de me fazer desistir...
Tento um outro ângulo. O moço torrado de sol parece se incomodar com minha presença e puxa sua francesa pelo braço. Tento uma investida mais agressiva. Num salto abraço os dois, em simultaneidade com o click que me fará eterna enquanto estampa!
O casal monamur se cansa e se senta. A mocinha com a máquina em mãos pensa que me engana.
Percebo o ângulo da máquina e sento numa cadeira, logo atrás do casal simpático. Tenho cara de “tô nem aí” e observo, muito interessada, os urubus sobrevoando a montanha logo ali... Click!
Ao menos uma certeza eu tenho. O nariz e parte do queixo de uma brava guardiã de piscina serão eternizados pelas bandas da Z’oropa!


Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo