quarta-feira, 10 de junho de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XVIII – meu liso profundo

“B+” foi a nota conferida a mim na prova de atualização da Associação dos Guardiões de Piscina. Sr Telles torceu o nariz e disse que um “A” seria o satisfatório. Não fui demitida, mas saí do escritório com um bico de fazer inveja à Angelina Jolie. O que é que ele pensa? Que colar é uma tarefa fácil? Que só por que eu tinha todas as respostas estampadas em mini papeizinhos por todo o corpo, sou obrigada a tirar um “A”? Quero ver colar melhor que eu...
Tenho pensado muito em Ademar, pensado em minhas coxas cada vez menos tenras, em minha bunda cada vez mais próxima dos calcanhares, em minha vida sem novidades...
Há uns sete anos, ainda havia diversidade de tipos. Hoje, as mulheres ainda diferem quanto ao peso, cor, circunferência de anca, altura... mas a diversidade já não é a mesma. Uma coisa todas elas tem em comum: o cabelo. Seja ele crespo, cacheado, ondulado, agarradinho ou espevitado, todos tem, atualmente, uma coisa em comum: tornam-se lisos inevitavelmente. Nunca se viu tanta cabeça feminina com cabelo esticado, do couro à ponta.
Tirei “B+” na prova da AGP e garanti meu convívio diário com meu banco alto e minha luneta... assim sendo, acho que mereço um agradinho.
Diva da contabilidade, Meriluci da limpeza, Valéria da lanchonete e até o Jorge da portaria aderiram ao liso profundo.
Janete, uma cabeleireira lá de Padre Miguel, que acaba de abrir um salão pelas redondezas, anda distribuindo panfletos com descontos para funcionários do Piscina lazer e Cia. Chapinha simples, de chocolate e formolife... escova progressiva, gradativa e radioativa... alisamento egípcio, indiano e cuiabano...
Janete foi super simpática e dedicou a mim, sete horas e meia de seu precioso tempo. Lindinha, agora você só volta daqui a cinqüenta dias para retoque... não esquece, precisa ficar cinco dias sem lavar, nem molhar os cabelo... cloro, tu passa longe! Vento, poeira, sereno, calor excessivo, sol, nuvens esparsas, som alto, vibrações negativas e queijo coalho, também precisam ser evitados., disse minha atual melhor amiga.
Saí de lá sentindo que meu futuro, daqui para frente, seria realmente promissor. Sentia que aquele liso profundo extremamente “formolizado”, seria capaz de mudar minha vida.
Disse ao Sr Telles que precisava tirar segunda via de meu documento de identidade, por isso, faltei uma manhã inteira de trabalho... voltei agora e não há como inventar outra desculpa para não subir em meu banco alto e exercer minha tarefa diária.
Estou aqui em cima. Observo a tudo sem movimentos bruscos. Me movimento o menos possível. Os fios de meu cabelo parecem estar inteiramente unidos, emplastrados e extremamente colados à cabeça, aos ombros e parte do braço.
Todo o cuidado é pouco. Além de parcelas mensais para pagar minha geladeira de laterais não-inox, me comprometo agora, a parcelas mensais para pagar minha escova pró-regressiva formolife de morango e chutney de litchia. Janete disse que meus cabelos não precisavam de nada mais agressivo, já que eram naturalmente quase lisos.
Queijo coalho e sereno estão sendo facilmente evitados no momento. Minha preocupação maior é o sol, o calor excessivo e o vento.
Vigio através das lentes de minha luneta. Dois casais imbecis se divertem com briga de galo... um grupinho de meninas adolescentes discute a intelectualizada e já épica trama de Crepúsculo e Lua Nova ... Harry Potter já é coisa do passado.
Vejo alguma coisa boiando... me parece alguém... uma criança... Guardiã de Piscina aplicada e eficiente que sou! Desço de meu banco alto pronta para o resgate... Tento pensar na bunda de Brad Pitt, num resort em Acapulco e num enorme cheseggsaladonionburger... Apenas coisas positivas. Janete havia me recomendado quanto à vibrações negativas.
Na beira da piscina avisto o alvo. Penso em meu cabelo em estado de liso profundo. Olho para o alvo. Sinto o cheiro de cloro. Era a vida do alvo, ou o liso de meus cabelos...
Me jogo na piscina já deixando que as vibrações negativas “inexorcisáveis” se apoderem de meu corpo. Chego a desejar queijo coalho.
Encontro o alvo. É irritantemente inacreditável que eu tenha destruído, moído, despencado e dizimado meu liso profundo, por uma boneca pelada e sem um olho.

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:

quarta-feira, 3 de junho de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XVII – a prática eu aplico, a teoria eu colo

foram duas semanas dormindo e acordando num invólucro de nylon quente e azul... até que fui descoberta... Gleycione, o segurança do Piscina Lazer e Cia – aquele que muitos capítulos atrás me obrigou a sair com ele em troca de silêncio, no capítulo bunda no braço – se vocês não se recordam, eu jamais esquecerei! Lembro sim, de ser obrigada a acompanhá-lo num churrasco na laje de um primo de um amigo de seu concunhado... Quilos de carne dura, salgada e de procedência duvidosa... Horas de um cara chato, pegajoso e com pilastras de cuspe na boca...
Está certo... fui descoberta! Gley até que tentou me propor “coisinhas” em troca de seu silêncio... Antes que ele terminasse a frase, saí correndo em direção ao escritório de Sr Telles. Eu hein... outra dose de Gley, nem pensar!
Contei tudo, tudinho para Sr Telles, ainda com a barraca azul toda embolada embaixo do braço.
Sr Telles me olhava de um jeito indecifrável. De repente percebi uma ligeira umidade se formando no canto de seus olhos. Sr Telles me abraçou, beijou minha testa quase subindo num banquinho e me disse: Filha, eu sou uma pessoa boa, muito boa... tenho mesmo este defeito! Não sei ver uma alma perdida e desorientada e não ser caridoso...
Desde aquele momento, Sr Telles “pegou feição” por mim, como ele mesmo diz.
Estou agora morando num quartinho com banheiro, nos fundos da lanchonete do clube. O cheiro de gordura reciclada é um pouco forte, mas tem cama e não é azul! E querem saber o que vejo através da pequena basculante?... basta subir na cama, inclinar o corpo a 35 graus, pender a cabeça para o lado esquerdo e... está lá meu querido e afeiçoado banco alto!
Ontem já trouxe minha geladeira de laterais não-inox para cá e hoje já estou indo serelepe atender ao chamado de “papi” Telles...
Entro na sala sem bater, afinal, agora sou como uma filha... Papi parece agitado. Uma mulher de olhar estranho sai no momento em que eu entro.
Está vendo esta senhora que acaba de sair? É da Associação dos Guardiões de Piscina... Veio aplicar a prova em você!, disse Papi depositando em mim toda sua confiança paternal.
Aplicar em mim? Raqui ou Peridural? Não gosto da idéia de ficar sem sensibilidade da cintura para baixo... Saí do escritório com um livreto, manual do guardião de piscina. Minha filha, ou você tira “A”, ou terei de dispensá-la!, diz Sr Telles, agora nem tão paternal assim...
Me lembro... recebi, há mais ou menos um mês, um envelope pardo pelo correio. No remetente havia escrito datilografadamente à máquina: AGP convoca. Não me liguei que talvez fosse algo importante... joguei fora achando que seria algum panfleto publicitário ou o documento com a ordem de despejo.
Não estudei absolutamente nada e não sei absolutamente nada. Saber eu sei. Sei fazer. Mas não sei conceituar. Há uma enorme diferença entre prática e teoria. Meus neurônios que cuidam dessa parte teorizante aí, andam meio adormecidos...
Algumas coisas a gente aprende e esquece em seguida. Outras a gente aprende e esquece algum tempo depois. E há ainda as que a gente aprende e... realmente aprende! Não esquece jamais. Essas, são raras e conto nos dedos, uma delas, é a produção perfeita de colas...
Tenho pouco tempo até a hora da prova. Não dá para selecionar, escolho respostas aleatoriamente, anoto em pequeninos pedaços de papel e escondo em lugares já preestabelecidos pela ACP – Associação dos Coladores Profissas – chinelo, aba do boné, coxa da perna, língua e em quase todos os orifícios de meu corpinho de guardiã.
É chegada a hora. Entro no quartinho de guardados. A mulher do olhar estranho me estende a prova numa prancheta daquelas que metem medo.
Sento na cadeira dos fundos, afinal, preciso de espaço para teorizar... Logo de cara: que lesão corporal resulta da exposição à energia elétrica, mecânica, química ou radioativa?, não tenho a menor idéia. Sei que na prática, eu poria mertiolate e esparadrapo. Consulto meu neurônio fixado ao boné e “voilá”.
Assim vou... consultando e acertando! Impressionante como essa técnica da ACP funciona! A moça do olhar estranho lê seu jornal tranqüila e eu vou, na prática, aplicando minhas teorias.

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:

quarta-feira, 27 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XVI – sou ótima?

é incrivelmente quente aqui dentro! Sonho que eu e Ademar estamos numa sauna à vapor. A fumaça é tanta que já não vejo seu rosto. Sinto o suor inundando meus olhos e... de repente, me transformo num enorme brioche recheado com calabresa e queijo coalho. Estou dourando no forno, enquanto uma fila descomunal espera, do lado de fora, ansiosa por me devorar...
Acordo no momento em que um rapaz de cabelos longos, lisos e oleosos, de jaleco branco, abre a porta do forno e me olha desejoso...
A barraquinha que me hospeda é muito azul e muito quente. Sr Telles está verdadeiramente impressionado comigo. Tenho chegado no trabalho até antes do horário... morar na barraquinha nos fundos do clube tem suas vantagens... talvez só essa.
Esta noite ventou bastante e a piscina está cheia de folhas e insetos. Com minha peneira, inicio a limpeza.
Dois banhistas já estão dentro d’água. Cato folhas ao redor de seus pescoços e ouço a conversa, fingindo não estar nem aí. Canto uma música sem som, apenas com o movimento dos lábios, só para disfarçar. Peneiro e escuto.
... Por que eu sô bom. Sô bom nisso sabe? Aliás sô ótimo!, diz o mais gordinho. Eu sei cara! Mas eu também sô muito bom, bom mesmo sabe... do tipo que não perde pra ninguém! Sô ótimo!, responde o narigudo.
Já não há folhas nem insetos, mas continuo peneirando. Fico curiosa para saber em que eles são tão ótimos assim!
O gordinho não pára de mostrar suas veias dilatadas do pescoço. O narigudo faz um movimento intermitente para um lado e para o outro. Em que eles são ótimos e imbatíveis? Em estourar jugular e imitar pêndulo?! Ah, isso eu também sei...
Os rapazes se afastam nadando cachorrinho. Deixo de lado a peneira e pego minha luneta.
De pé, na beira da piscina, observo através da lente e penso: Sou ótima? Sou ótima em alguma coisa? Pelo jeito, todos, inclusive os narigudos e os gordinhos são ótimos em alguma coisa...
Ah, sim! Sou ótima em salvamento! Mas quando assisto Pamela Anderson em episódios antigos de Baywatch... Não sou tão ótima. Não enquanto Pamela viver!
Uops! O que é essa miniatura ao meu lado? Uma menina, obviamente... uma menina de maiô preto, boné branco... ei, essa pirralha roubou meu antigo uniforme?! E esse binóculo super-ultra-infra-moderno totalmente ridículo?!
Acho que essa coisa pequena está me imitando... Sem que nenhum adulto ou funcionário do clube veja, boto minha língua para fora... recebo uma igual, só que menor. Ela está mesmo me imitando. Essa menina não tem mãe, não?
Percebo que talvez esse seja o momento para definir minhas diretrizes relacionadas ao “ótimo” em minha vida. Sinto que para ser ótima, preciso, ao menos, ser melhor que alguém, mesmo que ínfima criatura...
Faço uma careta com as mãos que poucas pessoas sabem fazer. Foi com ela que ganhei o concurso interno de caretas super criativas do Colégio Santa Terezinha, onde cursei o “prezinho 2”.
A menina me devolve uma careta realmente feia... ainda bem que ela não era minha concorrente no Santa Terezinha.
Tento umas bizarrices... ela se atira no chão e faz uma estrela perfeita! Pronto, agora que eu não saio da competição... ou sou ótima ou não me chamo... Me lanço numa estrela, tentando não quebrar nenhum osso. A menina agora repete o movimento com apenas uma das mãos... Caramba! Tenho que ser ótima! Tento um movimento mais arriscado. Dou uma cambalhota dando o meu melhor. A menina faz uma pirueta totalmente ótima que nem sei o nome!
Mas, certamente, esta diminuta não contava com minha astúcia! Planto uma bananeira perfeita! Tarââân! Quero ver ser mais ótima que eu!
A menina pede que eu espere e vai até a lanchonete. Um pouco competitiva a garotinha, não? Ela volta com uma bandeja de sanduíches e me chama para o “quem come mais”. Atacamos e nos atracamos nos pães com presunto. Perco a conta! Como algumas dezenas! Não é possível que caiba tanta massa de trigo e fermento nessa criaturinha...
Meu estômago está transbordando... Comemos agora o último sanduíche... Parece que estamos empatadas. A menina se levanta com cara de quem vai vomitar, dá dois passos e cai no chão! Carambola! Eu só queria ser ótima, não uma assassina de criancinhas. Me aproximo preocupada e sacudo a pirralha. Ahahahah!, levanta a menina rindo da minha cara dizendo: Te peguei! Te peguei! Eu sou a vencedora!
Tá bom... mas sou muito ótima em dormir enfiada numa barraca quente e azul.

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo: