quinta-feira, 16 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo X – o reco-reco dos meus sonhos

moça, moça! Ajude minha mãe, ela está se afogando! Chama ao pé de meu banco alto uma mulher muito nervosa. De pronto, desço e mergulho na piscina funda. Percebo o quão vigorosas e ritmadas estão minhas braçadas. Avisto o alvo. Uma senhora com apenas os olhos e a testa acima da água, pede socorro com as sobrancelhas...
Me aproximo, envolvo um de meus braços em seu pescoço e encaixo a mão debaixo de seu sovaco, ou pelo menos tento, pois meu braço não tem “circunferência” suficiente para envolver tal alvo corpulento. Percebo que o corpanzil da mulher demora a sair do lugar. Com o braço livre, tento repetir as braçadas vigorosas com que rapidamente cheguei ao alvo. Esforço inútil.
Vejo que a mulher respira normalmente e conversa comigo, enquanto evoco todos os poderes de “Grayskull”... Minha filha, ainda bem que você apareceu... por Santa Cecília e Santa Terezinha!! Que seria de mim sem uma salva-vidas como você... Falei com Gláuce que senti hoje pela manhã, que minha coxa parecia mais rija... é a danada da câimbra... POR SANTA EFIGÊNIA! Juro por tudo que há de mais sagrado que como duas bananas amassadas com aveia no café, todo santo dia... Não há potássio que me livre dessa agonia... Santa Maria mãe de Deus que Aristidinho preveniu... Ah, minha Santa Eufrásia que Emília e Didinha também já tinham avisado que esse negócio de piscina e câimbra num se juntam...
Incrível o fôlego de meu alvo! Eu já havia feito todas as técnicas de respiração alta, média, baixa, passando pelas três faixas, estilo cachorrinho e estilo boca e nariz juntos... Graças a todas as santas evocadas por aquela senhora, encosto meus dedos exauridos na borda.
Tento empurrá-la para fora da piscina. Em vão. Move-se três centímetros acima e de volta todo o corpanzil abaixo. Ponho as mãos da senhora segurando na borda e resolvo tentar minha técnica “míssil”. Prendo a respiração e nado até o fundo da piscina. Encosto os pés paralelos no chão, encolho as pernas e vuuuul! Me impulsiono diretamente para as nádegas de meu alvo... Ela, profere um singelo “ui” e continua estática. Eu, dou um grito de horror que se transforma em bolhas embaixo d’água e subo novamente em busca de ar desesperadamente.
Já passô, já passô a danadinha da câimbra... se preferir posso sair sozinha... Diz a senhora já colocando os pés nos estreitos degraus da “pobre” escadinha de alumínio. Faz essa gentileza!, Respondo com certo ar de derrota.
Vejo de longe que a filha abraça a mãe e a seca com uma toalha.
Ainda recobro o fôlego quando a filha se aproxima. Agora, percebo que seu rosto me é familiar. Muito obrigada, você salvou mamãe!, Diz ela me estendendo o braço definido.
Não só o braço é definido e definitivamente capaz de acenar para todo um batalhão da guarda militar, sem que uma balançadinha afete seu humor; mas todo o seu corpo. As pernas parecem coxas peladas e cruas de codornizes, com feixes de músculos saltitando com seus movimentos. A barriga... ah esquece o tanquinho! Falo de um imenso e poderoso reco-reco de pura madeira maciça... minha barriga está mais para cabaça de berimbau... Mas que droga! Quero esse reco-reco pra mim...
Não lembra de mim? Fomos da mesma turma na faculdade de Educação Física... Tá lembrada? Da Universidade Santa Luzia de Lavrinhas... Como um soco no estômago! Obvio que eu me lembrava de Gláuce, só não queria que fosse verdade. Eu, uma totalmente “desmuscularizada” e inteiramente incapaz de dar “tchauzinho”, frente a frente com o meu sonho de consumo... infelizmente sob o poder de Gláuce.
Na época de faculdade, eu tinha músculos definidos tal qual Gláuce. A partir deste exato momento, às onze e vinte e três da manhã, tudo que farei, será em prol de meu corpo perdido.
... O banco alto torna-se um moderno equipamento multifuncional... trabalho bíceps, tríceps, panturrilha e parte interna da coxa... Up, up! É preciso correr, correr e correr ao redor da piscina rasa...
O diretor, Sr Telles, nem pode reclamar, já que meu trabalho está sendo feito. Apenas não desperdiço nem um momento sem me exercitar. Depois de tirar folhinhas e pequenos insetos da piscina com a enorme peneira, aproveito e a utilizo como alteres... Latinhas e garrafas jogadas pelo chão? É pra já! Pernas esticadas, corpo alongado... e um! Já estou próxima à latinha de refrigerante jogada ao chão... e dois! Pego a latinha... e três! Me direciono para a lata de lixo... e quatro! CESTA! Latinha na boca do latão!!
Ai chega... Gláuce que fique com seu reco-reco... Cansei...

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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo

quinta-feira, 9 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo IX – bunda no braço

Hoje o vento não sopra, arrota um bafo quente e seco. O calor está mais intenso que ontem, que anteontem e que ante-anteontem.
Mesmo aqui em cima no banco alto, não há brisa. O guarda-sol parece não conter os raios e sinto o sol queimando o topo da cabeça. O suor me desce o rosto e respiro com dificuldade. Abro e fecho os dedos dos pés para refrescar.
De luneta em punho executo meu serviço habitual. Observo banhistas dentro e fora da piscina. Crianças brincam para lá e para cá. A moça que costuma se lambuzar de blondor na beira da piscina, hoje está tranqüila, arrancando pêlos da virilha com pinça.
É interessante. Tem dias em que as pessoas parecem tão normais... Passeio minha lente entre os associados e por todo o pátio. Ôpa! Vejo uma coisa estranha... Volto minha lente procurando o que vejo, sem acreditar. Perdi! Perdi!... Aha, achei! É inacreditável... como alguém teria coragem?
Não, deve ser o calor na cabeça que começa a me fazer delirar... A nécessaire está aqui em cima e resolvo colocar minhas lentes para astigmatismo. Tenho certeza, com lentes, perceberei que o que vejo não é o que realmente vejo!
De lentes e luneta, foco novamente na “coisa” inimaginável. Infelizmente continuo a ver o mesmo. Ainda sem acreditar, coloco também meus óculos de grau. Quem sabe um acúmulo de mesmas funções não consiga me ajudar a ver que o que vejo, não é verdadeiramente o que vejo?
Negativo. Ainda está lá, movimentando-se vagarosamente, sem pressa alguma... Um despautério!
Devo ter uma lupa em algum lugar por aqui em minha nécessaire... Achei! Sabia que além de queimar formigas, ainda encontraria alguma utilidade para ela!
Lentes, óculos, lupa e luneta. Sou mesmo uma pessoa descrente. Preciso tentar, com até o último recurso, ver, que o que eu vejo, repetidas vezes, não é o que vejo...
É. É realmente, verdadeiramente, indubitavelmente uma bunda branca, bem no foco de minha luneta.
Dou um giro com minha lente e vejo que ninguém se espanta. Mais espantoso que uma pessoa estar de bunda de fora num clube familiar, é não existir mais espanto entre as pessoas que vêem um indivíduo de bunda de fora num clube familiar.
Daqui de cima, não enxergo a bunda sem luneta. Preferia advertir um milhão de buços descolorando que uma única bunda de fora.
Desço de meu banco alto e chamo o segurança para me acompanhar na empreitada. Enquanto andamos, penso em como abordar uma bunda passeando livremente. Senhor, sua bunda está de fora... ou, o estatuto do Piscina Lazer e Cia prevê como contravenção, deixar à mostra suas partes traseiras abaixo do Cox e acima das coxas... ou, senhor, sei que o calor está quase insuportável, mas temos crianças no recinto...
Dou algumas voltas pelo pátio e pareço perder o alvo de vista. O segurança me segue e me olha estranho, sem entender por que fora chamado.
Não é possível! Eu vi, através de quatro lentes, glúteos brancos e totalmente desinibidos...
Ponho a luneta no olho direito e tento localizar a bunda. Aháá! Grito, assustando o segurança, que ri, mostrando pilastras de cuspe nos cantos da boca.
Achei a bunda! A enorme bunda há poucos metros de mim e do segurança. Sigo olhando através da lente e andando a passos curtos. Não perco a bunda de vista nem um segundo.
Acho que estou bem perto. Por que o segurança está tão quieto? Já deveria ter reagido diante tal obscenidade! Estou bem próxima do alvo extremamente branco. Resolvo, não sei por que cargas d’água, tardiamente, descer vagarosamente minha lente. Ao movimentá-la para baixo, vejo um antebraço, uma mão e um rosto expressivamente atônito apoiado nela. Geralmente, o que viria logo abaixo de uma bunda, digamos, num corpo normal? As pernas... Aqui tenho um antebraço e um segurança me olhando irritado.
Retiro do olho minha luneta e percebo que estou quase no colo de um senhor de óculos, bigodes, muitos quilos e um braço dobrado abaixo da cabeça, tentando relaxar numa espreguiçadeira.
Desculpe-me senhor! Apenas verificação de rotina... pensei, por um instante, que seu braço dobrado fosse uma bunda branca...
O senhor do braço não deu queixa na diretoria, talvez por que fosse obrigado a mencionar “bunda”. Quanto ao segurança, fui obrigada a sair com ele em troca de silêncio... Ai banco alto querido, até pilastras de cuspe eu enfrento para manter-me ao teu lado...

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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo

quinta-feira, 2 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo VIII – vai que eu te salvo

o que quer que eu faça é nele que eu penso... Desde o episódio de não-Ademar, que não aplaco minha enorme vontade de beijar boca de homem. Observo do alto de meu banco, através de minha luneta – feliz da vida com meu novo uniforme. Tudo parado aqui por fora e um rebuliço enorme aqui por dentro...
Para variar, minha única possibilidade a curtíssimo prazo de beijar na boca é salvando alguém.
... Vejo através de minha luneta que só há dois espécimes masculinos no momento por aqui. Sr Irene e um homem na casa dos cinqüenta, de óculos, calças jeans e camiseta. Sr Irene já teve sua cota de salvamento, me resta o outro.
Para salvá-lo de afogamento preciso, ao menos, que ele esteja dentro d’água, mas o livro que ele lê compulsivamente parece muito mais interessante que água.
Me aproximo assim, casualmente. Estou há um metro e meio e ele nem me percebe.
Resolvo puxar conversa. O que está lendo? O homem levanta os olhos do livro e responde: No Caminho de Swann, já leu? Ao todo li uns três livros na minha vida, mesmo assim por que fui obrigada na escola. Já sim... é do mesmo autor de O Alquimista, não é? Chutei pessimamente mal. Não, eu estou lendo Proust, ele responde com cara de enjôo. Caramba, este deve ser um desses autores novos de quem nunca ouviu falar...
Tudo bem, o início de nossa conversa foi bola fora, admito. Mesmo assim continuo, já que meu objetivo é fazer com que ele largue o livro e entre na piscina.
O sol está lindo hoje, não vai dar um mergulhinho? Ele me responde negativamente balançando a cabeça. Continuo querendo ser engraçadinha: Tá de calças jeans por quê? Escondendo micose?... Desta vez, nem obtenho resposta.
Olha, a água está deliciosa, na temperatura ideal para umas braçadas... O homem fecha o livro e olha para o chão. Não sei nadar, ele responde. Fico uns bons vinte minutos convencendo-o. Digo que isso não é empecilho para se deixar de curtir um bom banho, já que há a piscina rasinha para bebês... que seria o mesmo que se afogar numa bacia... e que se alguma coisa fugir ao controle, estou aqui... A verdade é que usei 75% de toda minha criatividade tentando convencê-lo. Só depois de oferecer-lhe boinhas de braço, esquecidas nos achados e perdidos, é que ele resolve entrar na piscina rasa.
Lá está ele, feliz, mas estático. Seu medo é tanto que parece não mover um músculo. Assim fica realmente difícil iniciar um salvamento, se nem o queixo ele emerge.
Tento animá-lo dançando macarena na borda da piscina, suas sobrancelhas até arqueiam, mas ainda não tenho subsídios suficientes para um salvamento.
Lembro de não-Ademar. Uma fogueira reacende dentro de meu peito e preciso, desesperadamente, iniciar um boca a boca. Olho para os lados, não vejo ninguém. Só o Sr Irene deitado numa espreguiçadeira alisando a própria barriga e brincando com seu umbigo cheio d’água.
Sento na borda da piscina e digo ao homem que irei fazer uma coisa muito bacana, bem mais divertida que Proust... Começo então a bater as pernas, criando ondas e uma montoeira de água no rosto dele. Agora sim, há um afogamento...
Me atiro na água com todo o estilo “salva-vidas” e o trago pelo pescoço. A piscina é muito rasa e eu me levanto e fico de pé. O homem, totalmente desorientado, se debate na água, sem conseguir se levantar. Com dificuldade o retiro da piscina.
O homem está estirado na borda, vomitando água e se debatendo. Me ajeito para o tão esperado boca a boca, puxo uma quantidade grande de ar para os meus pulmões, me preparo para a execução e... quando me aproximo, com todo meu empenho de guardiã de piscina, vejo uma situação altamente inesperada. Uma enorme meleca presa ao nariz, escorrendo pelas bochechas do homem. Hesito. Encho os pulmões novamente, e... não há possibilidade... o homem ainda parece não respirar direito... mas hoje, boca a boca, não vai rolar... sopro de longe e abano com as mãos...

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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo